Meu pai continua me olhando...
- Daliane Azevedo P. Guimarães

- há 7 dias
- 3 min de leitura

Vinte e um dias se passaram do dia mais difícil dos últimos tempos. Meu pai partia desta vida, seguia para outra morada. Descobrir como viver sem ele, fisicamente, é a maior tarefa. Construir um mecanismo diferente nunca foi tão desafiador. São lembranças, palavras, silêncios, lugares, busca de explicações que talvez não virão, justificativas, preenchimento de espaços... mas dor é dor, e ela precisa ser sentida. Meu pai sabia bem o que era isso!
Estranho a escrita no passado, pois a fala ainda continua no tempo presente. Há algumas semanas ele me perguntava sobre o término do mestrado, mesmo estando num leito de UTI. Acho que prefiro deixá-lo no tempo do agora, dentro de mim e da minha vontade de continuar. A cada vez que eu viajava para as aulas, ele se despedia como se fosse a última vez, não gostava da distância, no entanto, não me impediu de ir.
Estou tentando juntar as lembranças dentro de mim, procurando o plano do caminho desde que a depressão o alcançou... e todos os outros desafios, os que sabíamos e aqueles que guardava em seu coração. As imagens vêm fácil, em todas as fases da minha história. Tenho certeza que isso vem acontecendo com todos que conviveram intensamente com ele.
Na celebração de corpo presente, ao subir no altar da igreja para fazer a minha última homenagem, dia 16 de março, segunda-feira, às 15h, vi uma igreja lotada, uma comunidade que o respeitava e sentia profundamente a sua partida, ouvi um silêncio regado de paz, uma energia boa que isolou qualquer vibração contrária. Meu pai era benquisto e isso se deve também ao que construiu ao longo da vida. Criou laços e distribuiu abraços – ainda que lhe faltassem as palavras.
Um dia desses, eu tirava o carro da garagem, um conhecido dele passa rápido de bicicleta e diz:
“- Como está César? Mande lembrança pra ele!”
Não deu tempo nem de contar o que havia acontecido. Voltei sorrindo, contei pra minha mãe e guardei a imagem da bicicleta, do homem, da velocidade... da viagem do meu pai, dos 75 anos vividos e partilhados conosco.
Eu admirava sua face esposo, sua face pai, sua evolução interna como pessoa, mas o mais bonito de assistir, foi meu pai sendo avô. Estendo esta admiração à minha mãe também. Eles sendo avós, imprimiram 'juntos' um carinho e uma paz aos netos – como raramente se vê.
Tive pena quando fui percebendo a sua partida, porque eu sabia que suas netas não mais o veriam. Cabe a nós, que ficamos, dar as mãos e aprender a caminhar sem a mão que apoiava, sem o abraço fácil, sem o ronco forte nos cochilos diários...
Eu creio que a Luz o recebeu e tem cuidado muito dele, na paz interior que ele buscava!
Sinto informar meu pai, que no fundo eu não queria que você fosse “tão cedo”! Havia muita esperança que ficasse um pouco mais por aqui, mas o Grande Arquiteto do Universo traçou um outro plano. Ainda não sei como fazer sem você, mas prometo continuar cuidando de Mainha – como sempre fiz e tenho certeza que você admirava e percebia!
Interceda por nós daí! Obrigada pelo exemplo de homem, esposo, pai e vovô querido que foi!
Ah, pai... lembrei aqui de quando me ensinou a andar de bicicleta, o senhor segurou um pouco e soltou. Saí andando sozinha, até perceber que não me segurava mais. Olhei pra você e então me disse pra seguir. Fui com muito medo, mas fui. Hoje, ainda amo a bicicleta, mas quero muito que continue me olhando pedalar, em qualquer canto que eu for. Sei que estará comigo e com todos que tiveram o privilégio do seu olhar sereno! Até um dia!




Seu texto tem uma doçura triste que permanece depois da leitura, dá pra sentir o quanto seu pai ainda está presente nas lembranças, no silêncio, nos gestos, até no seu jeito de seguir em frente. Fiquei com um nó na garganta, mas também com uma sensação bonita de carinho e de presença. Receba meu abraço, minha querida!
A dor da perda é imensa, mas o orgulho que você sente do seu pai será guardado eternamente.
Linda mensagem, Daliane.
Parabéns.
Que relato lindo! Tão cheio de vida, saudade e de esperança no reencontro humano. Seu César, foi um homem de muita calmaria com sua serenidade quando se aproximava de alguém. A saudade sempre é eterna. Que Deus possa fortalecer e encorajar aos que ficaram para seguir a vida com essa mesma serenidade que ele tinha , e que a esperança nunca morra dentro de nós, mesmo quando vivemos desafios tão intensos e difíceis como o luto. Muita força , fé e coragem a você amiga , sua mãe e todos para seguir a vida , mesmo sabendo que sempre conviveram com a ausência de alguém que se ama de verdade.
Abraço a você , com o carinho de sempre Marilan.
Meu Amor, que texto cheio de amor e saudade. Que você e todos nós encontremos consolo nas boas lembranças e na força do exemplo que seu pai (Papai) deixou.
Sr. César, querido amigo,
Que siga em paz, na serenidade e na alegria que sempre buscou. Continue olhando por sua família e pelos tantos amigos com o mesmo cuidado de sempre.
Até um dia!!