Um dia pra ficar

Atualizado: 3 de out.

Hoje ouvi de alguém que a gente precisa “romper”, seguir, ainda que esteja doendo, turvo, difícil. Então, escolhi a data: 02 de outubro, para voltar a fazer uma das coisas que mais gosto: catar as melhores palavras e falar do privilégio de existir por aqui.
No segundo dia de outubro, desde que me entendo por gente, fiz questão de comemorar. Nunca teve grandes coisas, nem reações muito expostas, mas sempre tinha um cartão, uns canudinhos, um bolo, um cartaz, um abraço, uma brincadeira sobre a velhice que se mostrava cada vez mais presente... Era, é, e sempre será o dia do aniversário do meu pai. Se estivesse aqui, faria 76 anos.
Pra lembrar, temos tanto, todos os dias; pra esquecer alguns passos arrastados, cargas dolorosas; pra continuar, colheita diária.
Pra contar tenho mudança, tenho conquista, tenho amizade, tenho vontade. E é bem assim que rompemos. Com o tempo o luto não fica fácil, pelo contrário, parece se espalhar por todo canto. Aliás, venho cantando e contando recomeços, desviando o olhar, focando na presença e nas milhões de pequenas coisas que o mergulho no desconhecido vem proporcionando.
Não somos os mesmos quando se abrem portas de dor. Não me perder é o principal propósito, por isso colho os reencontros com o filme da minha vida, com as pessoas que escolhi deixar na minha história, com uma dose de conforto e de afeto no cinema com uma grande amiga, nas mensagens “de luz” que me chegam, na assinatura de um diploma cuidadosamente guiado, providencialmente conquistado, com as plantas que tiveram o seu tempo de adaptação e se mostram em outra fase, com a gatinha que todo dia e o dia todo – reaparece com a mesma alegria e carinho de sempre...
Acredito que continuar também é escolher, é encontrar em dias mais tristes, aceitação; em dias mais felizes, textura e musculatura, para suportar os intervalos entre os reencontros comigo a cada estação!
É grande aquele que não se envolve com os desafetos, mágoas e com aquilo que destrói. Ofertar-se um lugar de cultura, leitura, tessitura de elos verdadeiros é desvincular-se do contorno do humano perverso que todos temos. *"Eu acho horrível e bonito que o amor não escolhe pra onde vai..."!
Concluo com uma frase poderosa para os dias mais intensos, no contato com quem e com o que nos é prejudicial: Para atitudes infantis, silêncios adultos!
Sigamos firmes!
Amém!
*Trecho da música Amor, do cantor Jão



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