
Um pacote de aroma
- Daliane Azevedo P. Guimarães

- 16 de ago. de 2020
- 3 min de leitura
Numa brincadeira séria de sugestão de temas, uma amiga me pediu pra falar sobre exportação de café - confirmando que eu continuaria tendo o mesmo nível de escrita...
E, ainda que brincando, resolvi aceitar o desafio. Entorto um pouco o tema e discorro apenas sobre essa iguaria brasileira e de tantos outros locais.
Começo por mim, afirmando que não gosto de beber o café, mas o seu aroma sempre me fascinou. Cheiro de amanhecer, de dia começando, do acordar dos compromissos todos, de casa de vó... O olfato nos remete a infindas memórias. Confesso que por nunca gostar de bebê-lo e ser a primeira coisa que se oferece às visitas, causei certo desconforto aos meus pais. Ora justificavam como sendo uma besteira minha, ora me permitiam um lugar de escolha - que poucas vezes tinha o mundo infantil da minha geração.
Se a minha criança interior pudesse falar hoje, juro que ela pediria respeito por ter sofrido certa humilhação e preconceito por não beber o danado do café. Implícito aqui que criança não podia decidir o que comer, principalmente sendo pobre e mulher! "Que indelicadeza com os anfitriões! Quanta besteira não gostar de algo que todo mundo aprecia! Como fará o café para seu esposo, se você não gosta?" - DARIA aqui pra deixar uma infinidade de dizeres alheios que em nada me convenceram a tomar esta bebida, mas muito me diziam sobre o desrespeito à criança.
Na minha casa atual também tem café, aprendi a fazê-lo e como disse, continuo apreciando o seu cheiro e hoje vejo como as pessoas despertaram, têm um olhar diferenciado após tantos anos consumindo e transformando os grãos da sinceridade excessiva em um pó milagroso para a geração atual.
Há tantos alimentos que associamos à nossa mais imediata fonte de prazer, que seria injusto oferecer este pódio somente ao café!
Arábica, Conilon, aroma, doçura, variações de acidez, corpo e sabor, seleção dos melhores grãos, produto que leva o Brasil ao patamar da agricultura e exportação mundial... Observando por esta vertente, encontro mais uma positiva interpretação para tanta admiração destinada a esta pequena semente.
Por outro prisma, um tanto quanto negativo, encontro um Brasil que seleciona o melhor café e o exporta, e devolve ao brasileiro seus piores grãos, por vezes misturados a milho, soja, dissabores que empobrecem a bebida e enfraquecem qualquer amizade. Um país em que o latifundiário tem mais valor que o pequeno produtor, pode cavar sua própria cova e sem qualquer adubo que lhe salve, deixar o solo da "humanidade" sem fertilidade nenhuma.
Há campanhas tão intensas pra que se compre do pequeno e médio agricultor, para que valorizem a produção local, o produto in natura... que me faz crer que é possível plantar de novo, ser cafeicultor de um grão melhorado de sabedoria humana e respeito mútuo.
Um costume de se oferecer algo aos visitantes, pode passar também pelo chá, pelo biscoito, pelo suco natural e até pelo tão desejado café; o que não se deve, é misturar e aceitar que os trituradores de emoções, roubem seu direito de fala e de escolha - que precisa necessariamente começar na infância. Agradar o outro constantemente tolhe a construção segura do amor próprio - a nascente de todos os outros amores, grão dos grãos, semente de alta qualidade, que nos protege de tantas pragas humanas que tendem a desmerecer o "produto homem" nascido para o bem!
Que saibamos apreciar os aromas, o que vem realmente de perto, o que é terno, o que faz evoluir e traz um lucro assombroso, chamado: empatia.




Uau!!! Desafio realizado com sucesso!!!
Ah, liiinda!!!!!
Amoooo café! Amooooo seus textos... 💖
Muito bem!!! 🌷🌷
Eu nunca duvido de sua capacidade Lindona! Faz um gostoso café apenas pelo faro! Kkk... Você é demais!!